quinta-feira, março 31, 2005

Haute Cuisine

www.platdujour.co.uk/

www.gemueseorchester.org/

Dois projectos musicais que ainda nao ouvi, mas que me deixaram curioso.

sexta-feira, março 11, 2005

... e porque hoje é sexta


Jefferson Airplane: musica para o fim de semana, Somebody to love, o inicio da musica psicadelica que resulta sempre Posted by Hello

quarta-feira, março 09, 2005

Mourinho Todo-Poderoso

Arsene Wenger, Alex Ferguson, and José Mourinho all perish in a plane crash and went to meet their maker.

The supreme deity turned to Wenger and asked, tell what is important about yourself.

Wenger responded that he felt that the earth was the ultimate importance and that protecting the earth's ecological system was most important.

God looked to Wenger and said, " I like the way you think, come and sit at my left hand".

God then asked Ferguson what he revered most.

Ferguson responded that he felt people and their personal choices were most important.

God responded, " I like the way you think, come and sit at my right hand".

God then turned to Mourinho, who was staring at him indignantly.

God asked "What is your problem Mourinho "?

Mourinho responded:

" I think you are sitting in my chair".


[via Elba Everywhere ]

terça-feira, março 08, 2005

Seu berloquista anti-americano do carago!...


[ Cartoon de Bandeira : DN 07 de Março de 2005 ]

Assunto nós temos, só nos falta o Eça.

segunda-feira, março 07, 2005

Não acredites ...

Não acredites em alguma coisa simplesmente porque a escutaste.

Não acredites em tradições simplesmente porque provêm desde há muitas gerações.

Não acredites em algo só porque é falado ou é motivo de rumor por muitos.

Não acredites em algo simplesmente porque vem escrito nos teus livros religiosos.

Não acredites em algo simplesmente porque é dito pelas tuas professoras ou anciãos.

Mas, após observação e análise quando encontrares que algo vai de acordo com a razão e é conduzível à felicidade e benefício de uma só pessoa e de todas, então aceita e vive-o.

: Buda Shakyamuni : Kalama Sutta

Dúvida

Acerca dos deputados eleitos pelos círculos no estrangeiro (emigração), uma dúvida que me ocorre: qual a diferença entre um português que vive na Califórnia há quarenta anos e que pode eleger deputados para o parlamento português, e um ucraniano que reside em Portugal há quize anos, fala português, tem emprego estável e paga os seus impostos, segurança social, etc. mas não pode eleger deputados?

domingo, março 06, 2005


o topo da cupula e a vista da cidade Posted by Hello

a escultura que é suportada pelas paredes exteriores da cupula e que serve tambem de iluminação à sala do plenário Posted by Hello

o edificio visto de fora e na primavera lol Posted by Hello

as espirais da cupula Posted by Hello

o incendio do reichstag atribuido aos nazis Posted by Hello

Reichstag

Da viagem que fiz a Berlin, fiquei marcado sobretudo por edificio onde se sente nas paredes do mesmo a modernidade que permite avançar no tempo, mas sem esquecer o passado, principalmente o passado que pode envergonhar e oprimir.

As marcas das balas, das bombas e dos incêndios, apesar dos minuciosos trabalhos de restauro, fazem sentir que algo ali teve um periodo de ódio, existindo um sentimento de presença de imagens de Holocausto, mas sobretudo do Holocausto do próprio povo alemão, em especial das vitimas de um regime hediondo, chamado nazismo.

O fabuloso trabalho que o Arquitecto Norman Foster realizou ao lhe acrecentar uma cupula, que mais que um elemento arquitectonico de substituição torna-se uma forma vibrante de respirar o edificio e torna-se ao mesmo tempo o símbolo de uma vontade de ir mais alem por pior que tenha sido o passado.

A cupula que é constituida por duas espirais que nos levam ao topo em sentidos contrários, permite uma visão desafogada da cidade, mas ao mesmo tempo permite uma visão da sala de plenario do parlamento alemão, e é a sua principal fonte de iluminação.

Sobretudo é um edificio que vale por imagens.

sexta-feira, março 04, 2005

Stamps


[ Paula Rego - Direitos reservados ]

O Royal Mail britânico editou uma colecção de selos baseados em seis estampas da pintora Paula Rego. Trata-se de uma série que homenageia a escritora oitocentista Charlotte Brontë.

São 100 milhões de pequenas obras-de-arte da pintora que já estão à venda em todo o Reino Unido.

Navidá és siempre que um hombre quiér **

** frase em portunhol que significa o Natal é sempre que um homem quer


Estaba una pareja de cubanos, muy acaramelados, cuando de repente, le dice el a ella:

- Oye chica, dejame tocarte el wiwichu!

- Estas loco, mi negro, como crees?

- Andale chica dejame tocarte el wiwichu!

- No, nunca lo permitiria!

- Andale, dejame tocarte el wiwichu...

- Bueno, mi negro, solo porque te quiero mucho...

A lo que el negro le canta:

wi wi chu a merry crismas,
wi wi chu a merry crismas,
wi wi chu a merry crismas,
and a japy niu yir!

O melhor dia da semana



Música sugerida para hoje, Sexta-Feira 4 de Março 2005:

Boney M :: Malaika

Impossível ouvir sem esboçar um sorriso de orelha a orelha...

Have a nice FRIDAY

quinta-feira, março 03, 2005

Amar um burro com os olhos e a alma



[ Sancho recupera o seu burro que lhe havia sido roubado vários dias antes. Não há artíficios, não há floreados, nem figuras de estilo pomposas, apenas uma história que nos é contada em tom intimista, como que por um velho amigo que lá estava e que viu tudo. São trechos como este que distinguem as obras imortais daquelas que caem para sempre no esquecimento. ]


Mientras esto pasaba, vieron venir por el camino donde ellos iban a un hombre caballero sobre un jumento y, cuando llegó cerca, les parecía que era gitano. Pero Sancho Panza, que doquiera que vía asnos se le iban los ojos y el alma, apenas hubo visto al hombre, cuando conoció que era Ginés de Pasamonte, y por el hilo del gitano sacó el ovillo de su asno, como era la verdad, pues era el rucio sobre que Pasamonte venía. El cual, por no ser conocido y por vender el asno, se había puesto en traje de gitano, cuya lengua y otras muchas sabia hablar como si fueran naturales suyas.

Viole Sancho y conociole, y apenas le hubo visto y conocido, cuando a grandes voces dijo:

“Ah, ladrón Ginesillo, deja mi prenda, suelta mi vida, no te empaches con mi descanso; deja mi asno, deja mi regalo; huye, puto, auséntate, ladrón, y desampara lo que no es tuyo”.

No fueran menester tantas palabras ni baldones, porque a la primera saltó Ginés y, tomando un trote que parecía carrera, en un punto se ausentó y alejó de todos. Sancho llegó a su rucio, y, abrazándole, le dijo:

“¿Cómo has estado, bien mío, rucio de mis ojos, compañero mío?”

Y, con esto, le besaba y acariciaba, como si fuera persona. El asno callaba y se dejaba besar y acariciar de Sancho, sin responderle palabra alguna. Llegaron todos y diéronle el parabién del hallazgo del rucio, especialmente don Quijote, el cual le dijo que no por eso anulaba la póliza de los tres pollinos. Sancho se lo agradeció.

Miguel de Cervantes Saavedra
El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha

Cristo e os Media

Segundo o jornal Público:

"Um padre católico português anunciou hoje a sua recusa em dar a comunhão aos católicos que usam métodos contraceptivos, que recorrem à reprodução assistida ou que aceitam a actual lei em vigor sobre o aborto..."

Penso que é realmente importante haver pessoas que têem coragem para tomar uma atitude deste tipo, por duas razões:

É sempre incrivelmente divertido ver uma pessoa nos meios de comunicação social (este Padre Nuno Serras Pereira teve inclusivé direito a transmissão televisiva) defender os seus ideais ultrapassados com tamanha dedicação. God is on my side, so you better watch out bitches!

Hoje em dia temos programas de humor para todos os gostos. Há quem goste dos Malucos do Riso, do Maré Alta, do Prédio do Vasco, do HermanSic ou do Gato Fedorento - mas quem é que não dispensa uma boa bacorada em directo de um Telejornal? É o meu género de humor preferido, o mais puro e perturbador motivo para a a gargalhada. E não se reduz unicamente à Igreja Católica, claro está. Temos também a Dona Almerinda do Mercado do Bulhão, o Sr. Alberto da Sorefame and so on... É democrático e fica bem ver o povinho agarrado ao microfone e a cuspir gafanhotos pra cima da câmara, gritando tudo o que lhe vai na cabeça. São pequenos momentos de humor sem os quais a minha vida seria muito, muito mais cinzenta.

Em segundo lugar, é reconfortante ver um membro da Igreja Católica defender vigorosamente aquela que é, afinal, a verdadeira posição da Igreja acerca destes assuntos (aborto, eutanásia, métodos contraceptivos e reprodução assistida), reduzindo tudo a um simples se-apoias-não-comungas. Acabou-se o meio termo, arrasemos essa escória de semi-católicos que só vêem cá de vez em quando e não alinham no que a Igreja quer.

Agora vai começar a verdadeira caça às bruxas no seio da Igreja Portuguesa. Imagino já a Central de Inteligência Católica em pleno vapor, uma rede secretíssima de beatas de alta fé e bons costumes a coscuvilhar e arrancar informações de jovens inocentes: "A Fulana tem um D.I.U.", "a Sicrana toma a pílula", "e a Beltrana foi ontem ao ginecologista sabe-se lá fazer o quê." Tudo será depois entregue ao Senhor Prior e possívelmente documentado numa base de dados para posterior referência. Tudo para que no domingo santo se possa recusar a comunhão sagrada aos impuros, aos indignos da Casa do Senhor.

A Igreja Católica ao deixar que um dos seus pastores venha aos media cantar de galo e dizer este tipo de atrocidades, dá mais um passo em direcção à sua cova. Ou acham mesmo que os semi-católicos não-praticantes vão deixar de tomar a pílula para poder comungar ao fim-de-semana?

É sempre bom ver um padre com colhões no meio dessa grande Bichisse que é a Igreja.

[A mesma Igreja, a ferocíssima inimiga da Ciência, que prolonga insanemente a vida do seu Papa em exclusivas e avançadas clínicas medicinais]

quarta-feira, março 02, 2005

The Ultimate Britain Trivia Post!



... In 1566, most Victorian families kept a small boy lodged in their chimney for a rainy day. Those that escaped fled to the North and drew on their common experiences to construct the city of Manchester.

... Britain was set up by Universal Studios as a place to nurture villians for blockbuster movies.

... Fatty foods (like cakes and biscuits) were invented for fat british people so they could have something to eat.

... Next-door british neighbours were invented by the working class in 1994.

... Britain is now 23% more British than it used to be.

... Cricket is an ancient English martial art.

... Britain is actually pronounced 'Britain', which not many people know.

... If everyone in Britain jumped into the air at once, a tidal wave the size of a small wall would hit the coast of Ireland.

... At a £1 a pint, the more you drink the more you save!

... Britain gained independance from the Isle of Man in 2001.




For more about Britain and its natives, please check BBC's Little Britain

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Fotos do outro mundo - água, terra e fogo


[ Créditos: ESA/DLR/FU Berlin (G. Neukum) ]

Glaciares, vulcões e actividade fluvial em Marte. Foto do polo norte marciano pela Mars Express.

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

The Bible Sex Quiz

Do Middle Eastern men have large “external appendages” and great sexual prowess?

A.Whether they do or not, this is certainly not a subject the Bible would dare address.
B. No. Differential size and performance is a media myth.
C. Yes. In fact, Egyptians have penises the size of a donkey’s and ejaculations the volume of a horse’s.
D. Yes. Jews are really small.


Tudo isto e muito mais em The Bible Sex Quiz.

Os documentos do Jason

Ele trabalhava como webdesigner na capital do planeta, mas mandou o emprego às favas para blogar.

Simples, não é? Basta viver na capital do império, ter os contactos certos e estar a par de tudo o que se passa na grande maçã.

E uma ajudinha dos leitores, claro, porque isto dos blogs não mata a fome.

Um blog a seguir com atenção.

Olé Cristiano, Olé !



É a estrela da recente campanha da Pepe Jeans.

E o punk-trashy-chic fica-lhe bem!

Uma mão cheia de neve




O nevão em Madrid, ontem.
A "mão" de Botero na Castelhana e ao fundo as ruínas da Torre Windsor.

[ Crédito da foto: El Mundo ]

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

Bem-vinda

Há um barulho lá fora, água a correr, pneus no piso molhado.

Está a chover em Lisboa!

Happy birthday, Master Frideric Handel!


O jovem Handel ao cravo
caixa de cigarros da marca Famous Minors (1935)



Quando lhe perguntaram porque é que “roubava” música ao compositor italiano Bononcini para introduzi-la nas suas próprias composições, Handel respondeu:

It's much too good for him; he did not know what to do with it.

Um cantor inglês, chamado Gordon queixava-se do método de acompanhamento de Handel ao cravo, e como Handel insistia em acompanhá-lo da mesma maneira, o cantor ameaçou saltar em cima do instrumento e parti-lo em pedaços. Handel respondeu-lhe:

Oh! Let me know when you will do that, and I will advertise it. For I am sure more people will come to see you jump, than to hear you sing.

Certa vez a grande diva italiana Francesca Cuzzoni (soprano) recusou-se a cantar a ária Falsa imagine da sua ópera Ottone, re di Germania. John Mainwaring, seu biógrafo, conta-nos que:

Having one day some words with CUZZONI on her refusing to sing “Falsa imagine” in OTTONE; Oh! Madame (said he) je scais [sic.] bien que Vous êtes une véritable Diablesse: mais je Vous ferai sçavoir, moi, que je suis Beelzebub le Chéf des Diables. With this he took her up by the waist, and, if she made any more words, swore that he would fling her out of the window.

Acerca da composição do famoso coro “Hallelujah” do Messias, Handel terá dito:

Whether I was in my body or out of my body as I wrote it I know not. God knows.

G. Hogath em Musical History conta-nos:

“When Messiah was first performed in London (1743), when the chorus struck up, 'For the Lord God omnipotent reigneth' ['Hallelujah Chorus'], reportedly the audience and King [George II] stood and remained standing untill the chorus had ended. Some days after the first performance, Handel visited Lord Kinnoul. His lordship paid him compliments on "the noble entertainment". Handel is said to have remarked,

My Lord, I should be sorry if I only entertained them; I wished to make them better.

Apesar de se ter naturalizado inglês, e ele mesmo se ter tornado uma glória nacional, os seus problemas com a língua inglesa sempre foram um motivo de intermináveis anedotas e malentendidos. John Taylor, Jr. em Records of My Life conta-nos:

I heard him [Morell] say that one fine summer morning he was roused out of bed at five o'clock by Handel, who came in his carriage a short distance from London. The doctor went to the window and spoke to Handel, who would not leave his carriage. Handel was at the time composing an oratorio. When the doctor asked him what he wanted, he said,

"What de devil means de vord [word] billow?"

which was in the oratorio the doctor has written for him. The doctor, after laughing at so ludicrous a reason for disturbing him, told him that billow meant wave, a wave of the sea.

"Oh, de vave",

said Handel, and bade his coachman return, without addressing another word to the doctor.

Handel era um homem muito alto, muito corpulento, características que o tornavam igualmente famoso. Tamanha corpulência requeria muito alimento. Certa vez, querendo jantar num restaurante, pediu um jantar para três pessoas. Mas a espera tornou-se tão longa que ele insistiu com o criado de mesa:

Why do you keep me so long waiting?

O prestável criado respondeu:

We are waiting till the company arrives.

Then bring up the dinner, prestissimo, - ordenou Handel - I am the company.

A fama e o génio do compositor não passaram despercebidos aos seus contemporâneos a nível internacional. Handel era justamente considerando um dos melhores compositores do mundo. Mas as reações eram as mais diversas.

Sir Isaac Newton acerca dos seus dotes como intérprete de instrumentos de tecla:

I found...nothing worthy to remark but the elasticity of his fingers.

O Dr. John Arbuthnot (matemático e físico seu contemporâneo) afirmava:

Conceive the highest you can of his abilities, and they are far beyond anything you can conceive.

O grande Johann Sebastian Bach:

Handel é a única pessoa no mundo que eu gostaria de conhecer antes de morrer, e a única pessoa que eu gostaria de ser, se não fosse Bach.

Acerca desta frase de Bach, Mozart comentou:

Na verdade eu faço minhas as suas palavras.

Jonathan Swift exclamou certa vez enquanto esperava em Dublin por uma visita de Handel:

O pray let me see a German genius before I die!

Depois de ouvir o coro “Hallelujah” do Messias, conta-se que o grande compositor Joseph Haydn chorava como uma criança, dizendo:

Ele é o mestre de todos nós.

Entre os seus maiores admiradores achava-se Beethoven:

Handel é o maior compositor que alguma vez viveu… Perante o seu túmulo eu tiraria o meu chapéu e pôr-me-ia de joelhos.

Sempre que lhe perguntavam quem era o maior compositor de sempre:

Handel! Perante ele eu ajoelho-me.

Outra vez Beethoven, ao consultar uma edição das obras de Handel:

Aqui está a verdade.

Alexander Pope:

Strong in new arms the giant Handel stands,
Like bold Briareus with a hundred hands.

Uma breve descrição física de Handel, por um seu contemporâneo:

[Handel] was large in person, and his natural corpulency, which increased as he advanced in age, rendered his whole appearance of that bulky porportion, as to give rise to Quin's inelegant, but forcible expression, that his hands were feet, and his fingers toes. From a sedentary life, he had contracted a stiffness in his joints,which in addition to his great weight and weakness of body, rendered his gait awkward; still his countenance was open, manly, and animated; expressive of all that grandeur and benevolence, which were the prominent features of his character. In temper he was irrascible, impatient of contradiction, but not vindictive; jealous of his musical pre-eminence, and tenacious in all points, which regarded his professional honour.
William Coxe, Anecdotes of G.F. Handel and J.C. Smith, (1799)

Uma das questões que divide os estudiosos da actualidade é a suposta homossexualidade do compositor. Fosse ou não gay, a verdade é que nunca casou, e são raras aos olhos dos seus contemporâneos as evidências de uma inclinação natural para com o sexo oposto, à excepção de dois casos que mais lembram meras situações contratuais que propriamente relações dominadas pelos afectos:

Handel contracted few intimacies, and when his early friends died, he was not solicitous of acquiring new ones. He was never married; but his celibacy must not be attributed to any deficiency of personal attractions...On the contrary, it was owing to the independence of his disposition, which feared degradation, and dreaded confinement. For when he was young, two of his scholars, ladies of considerable fortune, were so much enamored of him, that each was desirous of a matrimonial alliance. This first is said to have fallen a victim to her attachment. Handel would have married her; but his pride was stung by the coarse declaration of her mother, that she never would consent to the marriage of her daughter with a fiddler; and, indignant at the expression, he declined all further intercourse. After the death of the mother, the father renewed the acquaintance, and informed him that all obstacles were removed; but he replied, that the time was now past; and the young lady fell into decline, which soon terminated her existence. The second attachment, was a lady splendidly related, whose hand he might have obtained by renouncing his profession. That condition he resolutely refused, and laudably declined the connection which was to prove a restriction on the great faculties of his mind.
William Coxe, Anecdotes of G.F. Handel and J.C. Smith, (1799).

Companheiro de Handel, e por muitos anos da sua vida, foi o seu fiel criado, o qual após a morte do compositor foi por testamento feito um dos seus herdeiros.

I have heard it related, that when Handel's servant used to bring him his chocolate in the morning, he often stood silent with astonishment (until it was cold) to see his master's tears mixing with the ink as he penned his divine compositions; which are surely as much the pictures of a sublime mind as Milton's words.
William Shield, An Introduction to Harmony (1800)

Conta-se que antes das actuações Handel detestava ouvir os ruidos de afinação dos instrumentos da orquestra, por isso os músicos tinham o hábito de afinar os seus instrumentos muito antes do compositor chegar ao teatro (presumo que Covent Garden). Certa noite em que o Princípe de Gales estaria presente, um engraçadinho terá previemente desafinado todos os instrumentos da orquestra. Quando o Principe entrou na sala, Handel deu o sinal para que a orquestra começasse con spirito. Mas foi tal a chinfrineira que o compositor enraivecido levantou-se do seu lugar, e virando ao contrário com grande alarido um enorme contrabaixo que se encontrava no seu caminho, agarrou numa baquete de tambor e atirou-a com grande violência ao musico que dirigia a orquestra (nessa época, não havendo ainda a figura do maestro, era o concertino), saltando-lhe inclusivé a peruca da cabeça com o esforço. Sem sequer se compor avançou diante da orquestra, de cabeça descoberta, berrando por vingança, da tal maneira cego de raiva que mal conseguia articular as palavras, por entre as gargalhadas do público. O próprio Princípe de Gales arriscou aproximar-se do gigante enraivecido e com muita dificuldade lá lhe conseguiu acalmar a fúria. Apenas nesse momento Handel se voltou a sentar ao cravo e continuar a actuação.

Quando tocava:

Silence, the truest applause, succeeded, the instant that he addressed himself to the instrument; and that was so profound, that it checked respiration, and seemed to control the functions of nature.
Sir John Hawkins, A General History of the Science and Practice of Music (1776).

When jaundice jealousy, and carking care,
Or tyrant pride, or homicide despair,
The soul as on a rack in torture keep,
These monsters Handel's music lulls to sleep.

Anónimo, 1740 .

De novo, Sir Isaac Newton:

Upon my mentioning to [Sir Isaac Newton] the rehearsal of the Opera to night (Radamisto) he said he never was at more than one Opera. The first Act he heard with pleasure, the 2d stretch'd his patience, at the 3d he ran away.
Diário do Reverendo William Stukeley, 18t de Abril de 1720

George Bernard Shaw:

It was from Handel that I learned that style consists in force of assertion. If you can say a thing with stroke unanswerably you have style; if not, you are at best a marchand de plaisir, a decorative littérateur or a musical confectioner, or a painter of fans with cupids and cocottes. Handel has this power...You may despise what you like; but you cannot contradict Handel.

Handel is not a mere composer in England: he is an institution. What is more, he is a sacred institution.

terça-feira, fevereiro 22, 2005

Fotos do outro mundo - Berço de estrelas


[ Crédito: NASA STScI-PRC1995-44b ]

Coluna imensa de gás de hidrogénio frio e poeiras onde nascem estrelas, aninhadas cada qual dentro dos pequenos "dedos" que despontam da coluna gigante. Cada um desses "dedinhos" é maior que o nosso sistema solar.

Fotografia do telescópio Hubble.

Prossegue a desinfestação

Aleluia! O Calimero demitiu-se!

O Polvo



Mas já que estamos nas covas do mar, antes que saiamos delas, temos lá o irmão polvo, contra o qual têm suas queixas, e grandes, não menos que S. Basílio e Santo Ambrósio. O polvo com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge; com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela; com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão. E debaixo desta aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa, testemunham constantemente os dois grandes Doutores da Igreja latina e grega, que o dito polvo é o maior traidor do mar. Consiste esta traição do polvo primeiramente em se vestir ou pintar das mesmas cores de todas aquelas cores a que está pegado. As cores, que no camaleão são gala, no polvo são malícia; as figuras, que em Proteu são fábula, no polvo são verdade e artifício. Se está nos limos, faz-se verde; se está na areia, faz-se branco; se está no lodo, faz-se pardo: e se está em alguma pedra, como mais ordinariamente costuma estar, faz-se da cor da mesma pedra. E daqui que sucede? Sucede que outro peixe, inocente da traição, vai passando desacautelado, e o salteador, que está de emboscada dentro do seu próprio engano, lança-lhe os braços de repente, e fá-lo prisioneiro. Fizera mais Judas? Não fizera mais, porque não fez tanto. Judas abraçou a Cristo, mas outros o prenderam; o polvo é o que abraça e mais o que prende. Judas com os braços fez o sinal, e o polvo dos próprios braços faz as cordas. Judas é verdade que foi traidor, mas com lanternas diante; traçou a traição às escuras, mas executou-a muito às claras. O polvo, escurecendo-se a si, tira a vista aos outros, e a primeira traição e roubo que faz, é a luz, para que não distinga as cores. Vê, peixe aleivoso e vil, qual é a tua maldade, pois Judas em tua comparação já é menos traidor!

Oh que excesso tão afrontoso e tão indigno de um elemento tão puro, tão claro e tão cristalino como o da água, espelho natural não só da terra, senão do mesmo céu! Lá disse o Profeta por encarecimento, que «nas nuvens do ar até a água é escura»: Tenebrosa aqua in nubibus aeris. E disse nomeadamente nas nuvens do ar, para atribuir a escuridade ao outro elemento, e não à água; a qual em seu próprio elemento é sempre clara, diáfana e transparente, em que nada se pode ocultar, encobrir nem dissimular. E que neste mesmo elemento se crie, se conserve e se exercite com tanto dano do bem público um monstro tão dissimulado, tão fingido, tão astuto, tão enganoso e tão conhecidamente traidor!

Padre António Vieira
Sermão de Santo António aos Peixes
(São Luís do Maranhão, Brasil, 13 de Junho de 1654)

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Antiguidades



A marcha imparável do progresso.

Por causa de uma crítica

A propósito da estreia em Portugal da ópera Dionisio, Re di Portogallo de Handel (primeiro ensaio da obra definitiva Sosarme, Re di Media), leio a crítica no Público:

Quanto à prestação do Complesso Barocco e à direcção de Alan Curtis, não sendo tão imaginativa ou arrojada como a de outros agrupamentos vocacionados para este repertório e tendo até algumas falhas (afinação nos "soli" de violino, deslizes nos oboés e trompas), funcionou em geral bem e evidenciou uma compreensão estilítica competente da música de Haendel.
(Cristina Fernandes)

Eu torço o nariz... Não duvido da senhora, que deve ser competentíssima, e mais entendida na matéria. Mas custa-me a crer que a coisa tenha sido tão insípida, que querem que vos diga? Que se trate de um dos mais importantes intérpretes actuais de Handel e da sua orquestra, responsáveies pelas primeiras gravações mundiais de obras como Rodrigo, Lotario, Deidamia, Admeto ou Arminio, nem palavra em toda a crítica. Todas elas gravações aclamadas pela crítica e premiadas internacionalmente. Mas fica-nos os conforto de que “funcionou em geral bem”. E que até “evidenciou uma compreensão estilística competente da música de Haendel”... Deve ser do meu mau feitio. Eu que até já ouvi a Orquestra Gulbenkian a rastejar atrás da guincharia da Fleming. Os gritos histéricos do público que aplaudiram nessa noite na Gulbenkian não desmentem. Acho que sei o que é o horror traduzido em música. Master Handel deve ter dado coices no túmulo.

Volto a dizer: eu não sei se será problema meu ou problema do público e dos críticos que frequentam o São Carlos e a Gulbenkian. Podem sempre calar-me dizendo do alto do pedestal que eu nem sei solfejo e tal, quanto mais criticar a música dos músicos! Mas tenho ouvidos. E se os músicos e os críticos vivem da autofagia, pois que se tranquem todos dentro de uma sala e que se devorem. Eu fico do lado de cá da porta, de orelha encostada à mesma, refastelado, a ouvir.

Vivendo em Portugal aprendi que o caviar é parco alimento para quem vive de feijoada.

Brideshead revisited

Ontem voltei à escola, não para estudar, mas para votar. Voltei ao meu velho liceu, o Gil Vicente no bairro da Graça. Tudo no mesmo sítio, mas estranhamente mais pequeno. No entanto ainda lá estão as arcadas, as paredes austeras (mas agora pintadas de fresco) as árvores, muitas árvores, o casario de Lisboa ao longe, e os campos desportivos rodeados pelo gigante mosteiro de São Vicente de Fora e pela muralha fernandina. Eram os limites do meu mundo adolescente, tudo começava e acabava ali, todas as relações, todas as fidelidades, os namoros, os primeiros cigarros e a minha primeira paixão, os ajustes de contas no pátio, o nariz a sangrar, as musicas cantaroladas, os planos, as intrigas, as alegrias, tudo.

Mais em termos afectivos que em termos materiais posso dizer que a minha existência actual se encontra a milhas daquele sítio.

Já por diversas vezes pensei mudar o meu recenseamento eleitoral para outras freguesias, mas acabo por nunca o fazer. Ontem percebi porquê.

A bela e o monstro

Mais uma vez a dura realidade serve para separar o trigo do joio: Paulo Portas assume as suas responsabilidades, com honra e dignidade, e mesmo que volte (e eu espero que volte, não porque goste dele mas porque creio que o seu contrapoder é precioso) já está desculpado. Apesar do teatro todo, da vozinha embargada e do olhito lacrimejante.

Entretanto os invertebrados continuam a escorregar para o abismo, caninamente seguindo o líder. Tristes e patéticas figurinhas que ontem guinchavam de alegria azeda enquanto o incompetente se pregava à cadeira e debitava mais um ridiculo discurso de vitimização. Ainda não lhes bastou. No final, quando só lhes restar o bunker e tudo por cima deles estiver em chamas, talvez eles percebam.


Música para hoje: Sonata para piano n.º 6, Op. 10 n.º2 de Beethoven
Artur Schnabel, piano - gravação de 10 de Abril de 1933 - [ Naxos 8.110694 ]

Hoje. Para nós um dia cheio de sol, mesmo com nuvens no céu.

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

Estes lusitanos são loucos


Há nos confins da Ibéria um povo que nem se governa nem se deixa governar...


Julio César (100 a.C. - 44 a.C.)

miniloftmitte

Portugal may be AMAZING but for all of those who may not give a damn about plastic politics, fake leaders and Canas de Senhorim, there is always THE REST OF THE WORLD!

For example, Berlin looks like a cosmopolitan oasis to me.

I could easily kill a portuguese politician just to stay one week in a place like this.

But then again, I might even just kill a portuguese politician just for the fun of it!

And I just know the perfect spot to do so...

terça-feira, fevereiro 15, 2005

Tele-Portugal

O pivot da TVI apresentando o Jornal da Uma de hoje: a vidente da Cova da Iria, a Casa Pia, algumas superficialidades em tom de gozo acerca da (não)campanha, sangue e fait-divers na cobertura internacional, o bloco desportivo onde se fala longamente acerca de nada. Questões tipo "Trivial Persuit" e micro-previsões meteorológicas antecedem eternidades de publicidade.

Sobre um estrado, ou varanda, ou o que seja, o pivot e as câmaras no directo.

O cenário por detrás do pivot: o adro de uma igreja - a Sé Nova de Coimbra - uma multidão de xailes e batas negras concentrada numa fila caótica às portas da igreja, esperando a vez de velar a vidente.

Mais nada consegue retratar tão habilmente a realidade medíocre e atrasada do país.

Nisto a TVI é imbatível.

Uma luz contra o obscurantismo


[ A retractação de Galileu ao Santo Ofício, assinada pelo próprio ]

Galileo Galilei. Nasceu faz hoje 441 anos, em Pisa, Itália. Oriundo de uma família remediada da baixa nobreza, Galileo desde cedo focou os seus estudos, por vontade do seu pai, na medicina: Enquanto frequentava a Universidade de Pisa, o subito interesse pelo comportamento dos pêndulos, levou-o a fazer algumas experiências com resultados surpreendentes. A partir daí o seu interesse pelos fenómenos da Física, do movimento dos corpos terrestres e celestes e o estudo do tempo foi imparável. As suas experiências quantitativas em larga escala são uma inovação sem precedentes no seu tempo.

Apesar de ser errada a tradição de que Galileo inventou o telescópio, a verdade é que ele foi um dos primeiros a usá-lo como ferramenta fundamental no estudo e observação dos corpos celestes, permitindo-lhe efectuar descobertas impáres e chegar às conclusões surpreendentes que o levariam ao conflito inevitável com a poderosa Igreja Católica.

A sua defesa do heliocentrismo de Copérnico em detrimento da teoria geocêntrica provocou o conflito com a hierarquia da igreja, a qual rebatia as opiniões de Galileo fundamentando-se na Bíblia e nas teorias (oficialmente aceites como dogmas absolutos) de Aristótles, Ptolomeu e Tycho Brahe. A publicação, em 1632, de "Diálogos dos Dois Sistemas do Mundo" foi a faúlha que incendiou a ira da Igreja: obrigado a comparecer perante o tribunal do Santo Ofício em Abril de 1633, foi sujeito a um processo que culminou nas ameças extremas de tortura e de morte, caso não renunciasse aos seus escritos e às suas ideias. Forçado a abjurar, amaldiçoar e renegar o seu trabalho, a sua sentença foi a de prisão perpétua, comutada em prisão domiciliária apenas devido ao seu estado de saúde debilitado e idade avançada. Morreu totalmente cego na sua vila, em Florença, em 1642.

Trezentos e cinquenta e nove anos depois do julgamento, em 1992, uma apologia do Papa João Paulo II levantava finalmente a sentença lançada pelo Santo Ofício.

A minha recomendação: o The Galileo Project para quem queira saber mais.

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Recados do além



Deus, o criador do Universo, das galáxias, nebulosas, estrelas e buracos negros, do Sistema Solar, do Sol, do planeta Terra, de todas as formas de vida simples e complexas, enfim, de tudo quanto existe, decidiu em 1917 enviar-nos em divina missão a sua santa mãezinha. E lá veio ela dos confins do Cosmos, daquele lugar incerto que no manual de instruções do cristianismo se designa por "Céu" (não o céu que nós conhecemos, pois este já foi varrido pelo telescópio Hubble, que não encontrou nada). À chegada a Portugal, a virgem-mãe, de seu nome Maria, decidiu montar-se numa azinheira para os lados da Cova da Iria e estabelecer contacto com três criancinhas mortas de fome que andavam a pastorear umas miseráveis ovelhas. Uma importantíssima tarefa guiava este ente divino: na posse de três segredos fundamentais para a Humanidade e para o Universo em geral, estava incumbida de os revelar para proveito e salvação de todos.

Segundo os relatos da ontem finada irmã Lúcia de Jesus, uma das três crianças testemunhas do fenómeno, o primeiro diálogo com a mãe do criador do Cosmos terá sido algo como:

- O que é que Vossemecê me quer? - pergunta a criança.
- Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, no dia 13, a esta mesma hora. Depois vos direi quem sou e o que quero.
[ Diálogo de Lúcia com a Virgem a 13 de Maio de 1917 ]

Um assunto de tão importante índole não poderia ser tratado logo ali à primeira. Por isso as crianças voltaram um mês depois, para serem informadas que ela era a mãe de Deus, e que:

Quero que rezeis o Terço todos os dias.
[ 2.ª aparição a 13 de Junho de 1917 ]

Assim, sem mais explicações. E como se isto não bastasse, na sua terceira visita a virgem mostra às aterrorizadas criancinhas o Inferno. Foi este o primeiro dos três importantíssimos "segredos" que Deus destinara à Humanidade.

Vistes o Inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores. Para as salvar, Deus quer estabelecer no Mundo a devoção a Meu Imaculado Coração. Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz. (...) Se atenderem os meus pedidos, a Rússia converter-se-á e terão paz. Se não, espalhará os seus erros pelo Mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia que se converterá, e será concedido ao Mundo algum tempo de paz. Em Portugal se conservará sempre o dogma da fé (...) Isto não o digais a ninguém. Ao Francisco, sim, podeis dizê-lo.
[ 3.ª Aparição a 13 de Julho de 1917 ]

O segundo "segredo" estava também revelado: a conversão da Rússia ao Imaculado Coração. Tudo coisas muito importantes. Nem o Marquês de Sade se lembraria de atormentar três petizes, que desde que nasceram apenas conheceram a miséria, com o reino de Satã. Tudo coisas ainda hoje muito importantes, sem as quais nos sentiríamos pobres orfãos abandonados pelo paizinho tirano.
Na seguinte visita é revelado o famoso "terceiro segredo", que tantos espíritos atormentará durante todo o século vinte, e cuja aura apocalíptica foi sabiamente usada pela Igreja Católica para efeitos de propaganda. Ao ser revelado (parcialmente?) creio que a grande questão que se pôs na cabeça da maioria das pessoas com mais de dois neurónios foi: e então?? Pelo que se percebe do extenso palavreado lido pelo Papa na sua última deslocação a Fátima, o "terceiro segredo" parece ter a ver com visões da beata Jacinta e com as atribulações e sofrimentos do Santo Padre. Pois.

Mas as visitas não pararam. Foram continuando até Outubro desse ano. Entre outros utilíssimos recados divinos, temos:

Farei o Milagre para que todos acreditem.
[ 4.ª Aparição a 19 de Agosto de 1917 ]

O qual parece explicar a alucinação colectiva que alguns milhares de camponeses analfabetos mais tarde jurarão ter, apesar dos desmentidos das fotos, da imprensa da época e dos testemunhos razoáveis de muitos presentes (o famoso "milagre do sol").

Continuem a rezar o Terço para alcançarem o fim da guerra.
[ 5.ª Aparição a 13 de Setembro de 1917 ]

A Europa estava há três anos mergulhada na mais devastadora guerra que a história humana até então conhecera. Portugal, uma nação pobre e subdesenvolvida, também estava envolvido na carnificina. Quatro meses depois da primeira aparição a mãe de Deus parece ter-se finalmente lembrado disso.

Quero dizer-te que façam aqui uma capela em Minha honra, que sou a Senhora do Rosário; que continuem sempre a rezar o Terço todos os dias. A guerra vai acabar e os militares voltarão em breve para suas casas. É preciso que se emendem, que peçam perdão dos seus pecados. Não ofendam a Nosso Senhor que já está muito ofendido.
[ 6ª Aparição a 13 de Outubro de 1917 ]

Como divindade que se preze, a omnipresente deusa do rosário necessita de uma barraca terrena para se abrigar das intempéries. E assim nasceu a Capelinha das Aparições.

É claro que questões de pormenor como a Segunda Guerra Mundial, Auschwitz e o Holocausto, os milhões de seres humanos que morrerão (e continuam a morrer) de fome e de doença, as crianças maltratadas, violadas e mortas, os milhares de conflitos armados, de caos, terrorismo, degradação ambiental, o inferno na terra em que se transformou o nosso planeta depois de 1917, não faziam parte da agenda de Deus nem da sua progenitora. Isto são certamente problemas menores, talvez travessuras de Satanás, esse maroto sempre pronto a desviar as atenções da Humanidade das questões importantes e fundamentais. E o que é realmente importante é o Imaculado Coração, o terço, as persiguições à igreja, a conversão da Rússia e o Santo Padre. E rezar. Rezar muito.

domingo, fevereiro 13, 2005

The Fashion of the Christ

A consternação abateu-se sobre as paróquias, do Minho a Timor:
a irmã Lúcia finou-se!

Portugal profundo - devoto - em CHOQUE. Santana Lopes suspendeu a campanha. Pela segunda vez. A primeira foi no Carnaval.

Podemos concordar que a centenária senhora, prisioneira desde o início do século passado, estava definitivamente démodé. No entanto o seu patrão lá em cima, talvez cioso da furiosa concorrência daquele profeta de barbas da Península Arábica, resolveu fazer um restyling e parece estar mais na moda que nunca! Senão vejam... in a very superficial way!


Nota de rodapé: também o CDS e o PS, na boa tradição oportunista, aproveitam mais uns votos à custa do choradinho de sacristia, interrompendo as respectivas camapanhas, em profundo luto e pesar. Realmente a pouca-vergonha não conhece limites.

sábado, fevereiro 12, 2005

夢ぢには


[ Hayao Miyazaki: Princesa Mononoke ]

夢ぢには
あしもやすめず
かよへども
うつつにひとめ
見しごとはあらず


Though I go to you
ceaselessly along dream paths,
the sum of those trysts
is less than a single glimpse
granted in the waking world.

Ono no Komachi (ca. 850 E.C.)

To Dream Of Love [TV Treated]



Your rails. You're thin. Your thin paper wings.
In the wind, dangling.
Get up to your sun. Fly high.
Your window shattering.
The sun on your Coca-Cola sign.

Homeless trees gathering.
Outside your window.
Bootleg babies call to you and lie among the mosquitoes.

The summer's fever coming.

Sugar box. Sugar girl.

There is a sound on the other side of this wall.


A bird is singing on the other side of this glass.

Footsteps.
Concealed.
Silence is preserving a voice.


imagem via Renas & Veados;
texto adaptado de "Juanita:Kiteless:To Dream Of Love", por Karl Hyde@Underworld;

Abortou!

Luís Nobre Guedes, ministro-de-saída-do-ambiente, acusou hoje o Presidente da República de "interrupção voluntária da governação". No Público.

Portugal is AMAZING

Kink Tank is proud to present its visitors a fascinating tour around this beautiful european country named Portugal.
Ladies & Gents, please welcome the
...

KINK TANK TOUR '05

Canas de Senhorim is a pleasant town conveniently situated within easy reach of the Serra da Estrela mountain range, midway between Nelas and Carregal do Sal.

Its close proximity to the rivers Mondego, Dão, Vouga, Paiva and Távora provide excellent opportunities for cruising and riverside bathing.

What to see. The town is a suitable base for those wishing to explore central Portugal and the Serra da Estrela, staying in high quality accommodation such as the Hotel Urgeiriça, a landmark property maintained in a distinctive English style. Recently restored, the hotel is reminiscent of an old-fashioned country house, with huge fires in winter and great vases of brilliant flowers during the spring and summer months. Alternatively, the Casa Abreu Madeira is a majestic 18th century manor-house where guests can savour delicious home-made Dão wine.

Nearby. Canas de Senhorim is located in the heart of the Dão Lafões region of central Portugal, an area known for its hot springs, many of which have been transformed into spa centres such as São Pedro do Sul, Felgueira (Nelas), Carvalhal (Castro Daire) and Alcafache (Viseu), which specialise in the treatment of dermatological and respiratory problems, arthritis, asthma and bronchitis.

Do you wish to book a Hotel in Canas de Senhorim? Please click here.

SDSS J090745.0+024507

Padecimento Lusitano: Mais uma excelente crónica de Helena de Matos. No Público.

Moi?

Yes I am conservative... what's that got to do with being a porn star? (quoted as heard)

    sexta-feira, fevereiro 11, 2005


    [ O Pavilhão Dourado, Kyoto ]

    Slowly passing days,
    with an echo heard here in a
    corner of Kyoto.

    Buson Yosa (1716 - 1783)

    Que pivete

    Esta manhã "O Independente" avançava com a notícia bombástica: «A Polícia Judiciária (PJ) tem "fortes indícios" de que a alteração da Zona de Protecção do Estuário do Tejo por José Sócrates terá tido como contrapartida o financiamento de campanhas eleitorais do PS».
    Tendo em conta o passado deste pasquim, apenas comparável a outros títulos do mesmo calibre como "O Crime", o "24 Horas" ou o "Tal & Qual", a notícia mereceria-nos tanto crédito quanto o anúncio do fim do programa de desenvolvimento de armas nucleares por parte da Coreia do Norte. Se à oportunidade da publicação da notícia somarmos a coincidência de estarmos a nove dias das eleições, de facto o fedor a merda torna-se tão notório que nem os melhores ambientadores o conseguirão abafar. É este o jornalismo que se faz na nossa aldeia.
    Há pouco, segundo a Lusa, a Procuradoria Geral da República esclareceu que «não existe nenhuma suspeita de ilícito criminal por parte do líder do PS, José Sócrates, em relação ao "caso Freeport"». Entre a publicação da "certeza" do Independente e o desmentido formal passaram apenas algumas horas! De qualquer maneira a cagada está mais que feita, e interrogo-me onde estarão os senhores encarregues de puxar o autoclismo. Também me causa espécie qual será o papel das veneranda figura da Comissão Nacional de Eleições e até do próprio Chede de Estado nestas situações. Entretanto a campanha prossegue, alegremente no seu estilo mais caceteiro, directamente importado da américa-latrina.

    quinta-feira, fevereiro 10, 2005


    [ Jardim de pedras no templo Zuhio-in, Kyoto ]

    Avisos Zen de Mumon

    Observar o que está estabelecido e cingir-se às regras é prender-se sem uma corda.
    Agir livremente ao sabor dos caprichos é fazer como os heréticos e os demónios.
    Reconhecer a mente e purificá-la é o falso zen do sentar silencioso.
    Dar-se rédea solta e ignorar as condições interrelacionadas é cair no abismo.
    Estar alerta e sem ambiguidades é utilizar correntes e uma canga de ferro.
    Pensar no bem e no mal pertence aos céus e aos infernos.
    Ter uma visão de Buda e uma visão do Dharma é estar confinado a duas montanhas de ferro.
    Aquele que apercebe um pensamento assim que este surge é alguém que esgota a sua energia.
    Sentar-se inconsciente em quietude é a prática dos mortos.

    Se avanças, afastas-te do princípio, se recuas, contrarias a Verdade. Se nem avanças nem recuas, és um cadáver que respira.

    Diz-me então - o que vais fazer?

    Trabalha arduamente e garante que "o" alcanças nesta vida, ou arrepender-te-ás eternamente.

    LOR

    For an instant it was an idea but it becomes something else.

    LOR means Lots of Robots.


    please visit and support


    Postas de pescada

    Hoje decidi-me a preparar uma pequena recolha de alguns títulos e manchetes que têm marcado a actualidade na nossa comunicação social desde o início da campanha. Repare-se no rendilhado argumentativo, na arquitectura retórica, na finura das figuras de estilo frequentemente invocadas pelo jornalista. Este monumento à nossa República é o resultado de uma práctica política primorosa cruzada com um profissionalismo jornalístico sem paralelo na Europa e no mundo. Ora deliciem-se e depois não me digam que não ficaram esclarecidos acerca dos temas fundamentais e estruturantes que estão em debate nesta campanha eleitoral:
    • Jerónimo de Sousa critica Santana por espera de militares do Iraque (Diário Digital)
    • Sócrates: «PSD não merece o voto dos portugueses» (Diário Digital)
    • Santana compara-se a Mário Soares (Correio da Manhã)
    • Filipe Menezes desafia Cavaco a dizer quem deve ser Governo (Diário Digital)
    • Cavaco não diz se vota em Santana (DN)
    • Santana Lopes: «Assumo que dou importância ao sentimento» (TSF)
    • Simone de Oliveira dá nega a Santana Lopes (Diário Digital)
    • O novo tabu de Cavaco (DN)
    • Cavaco Silva troca as voltas a José Sócrates (DN)
    • Sócrates sugere que Cavaco prefere maioria PS do que minoria do PSD (TSF)
    • Uma tarde de carnaval em São Bento (DN)
    • Santana pede distinção entre quem só «fala» e quem «faz» (TSF)
    • PSD Insinua Que Cavaco Deveria Dizer em Quem Vai Votar (Público)
    • CDU faz queixa do PSD à CNE (DN)
    • PS está nervoso, diz Santana (TSF)
    • Sócrates acusa Santana de "propaganda" (SIC)
    • Jardim "parcialmente satisfeito" com desmentido de Cavaco (Público)
    • Cavaco Silva terá desmentido aposta na maioria absoluta do PS (Público)
    • Cavaco Silva recusa envolver-se em "manobras eleitorais" (Público)
    • Cavaco tenta evitar vitimização de Santana (Público)
    • Jardim defende que aposta de Cavaco no PS é "causa de expulsão" do PSD (Público)
    • Portas acusa Sócrates de tentar "amolecer" eleitorado do CDS (Público)
    • Santana diz não acreditar que Cavaco aposte na maioria absoluta PS (Público)
    • Cavaco acredita que PS vai ter maioria absoluta (TSF)
    • PS desmente Santana e diz que Sócrates não fez inauguração em campanha (Público)
    • Santana Lopes refuta críticas de Sócrates sobre utilização de Falcon (Público)
    • José Sócrates acusa Santana Lopes de usar meios do Estado para fazer campanha (Público)
    • «Coimbra devia impedir Sócrates de entrar na cidade» (TSF)
    • PSD acusa PS violar Lei Eleitoral no Rio de Janeiro, PS nega (TSF)
    • Portas opõem-se a Santana e recusa novo referendo (TSF)
    • Francisco Louçã diz que direita quer uma maioria do PS (Público)
    • Secretário de Estado acusa PS de "copianço" (TSF)
    • PSD acusa Sócrates de «ignorância» (TSF)
    • Guterres faz perder votos, diz Portas (Público)
    • Padre exorta fiéis a rejeitarem programas que defendam aborto (Público)
    • PS governaria à direita com maioria absoluta (TSF)
    • Freitas do Amaral lamenta "insultos" (SIC)
    • Santana Lopes lança ataque cerrado a António Guterres (Público)
    • José Sócrates acusa PSD de "maledicência" e usar a "arma dos fracos" (Público)
    • PS desvaloriza estratégia eleitoral do PSD e do PP (TSF)
    • Louçã pede a Portas e Santana que continuem a dizer mal do BE (Público)
    • PS considera «propaganda» anúncio de Mexia (TSF)
    • Coelho e Santana trocam galhardetes (TSF)
    • Santana frisa que PS é único adversário (TSF)
    • Esquerda pouco agradada com debate (TSF)
    • PS recusa proposta do PSD para novo debate entre Santana e Sócrates (Público)
    • Debate divide opiniões (TSF)
    • Frente-a-frente sem surpresas (TSF)
    • «Corridas de futilidades» do PSD e PS (TSF)
    • PCP acusa PS de «chantagear» eleitorado (TSF)
    • PS tem metas impossíveis (TSF)
    • Portas acusa Sócrates por causa de equipa (TSF)
    • PS não tem casamento entre homossexuais no programa (SIC)
    • PS não precisa de maioria absoluta, diz PCP (TSF)
    • Bagão Félix acusa PS de três «défices» (TSF)
    • Campanha do PS recorre à Internet (TSF)
    • PS com maioria absoluta nas próximas eleições (TSF)
    • Santana Lopes contra casamento entre homossexuais (SIC)
    • PS acusa Governo de «precipitação» (TSF)
    • Santana nega ter proferido "insinuações" (SIC)
    • PS quer co-incineração (TSF)
    (em constante actualização!)

    quarta-feira, fevereiro 09, 2005

    Protejam-se! A barriga dele vai EXPLODIR!!




    BODYBUILDER'S CONTEST

    From scalp to sole, all muscles in slow motion.
    The ocean of his torso drips with lotion.
    The king of all is he who preens and wrestles
    with sinews twisted into monstrous pretzels.

    Onstage, he grapples with a grizzly bear
    the deadlier for not really being there.
    Three unseen panthers are in turn laid low,
    each with one smoothly choreographed blow.

    He grunts while showing his poses and paces.
    His back alone has twenty different faces.
    The mammouth fist he raises as he wins
    is tribute to the force of vitamins.


    Wislawa Szymborska - View with a grain of sand
    translated by Stanislaw Baranczac and Clare Cavanagh, Harcourt Brace & Co., 1995

    Quarta-feira de cinzas

    Imperdíveis os comentários e ilustrações relativos à quadra mais estúpida do ano (seguida muito de perto pelo insuportável Natal).
    No Vitriolica webb's ite.

    Are you local?



    The League of Gentlemen's APOCALYPSE é o filme baseado na melhor série de humor de todos os tempos produzida pela BBC.
    A estreia em Inglaterra está prevista para 22 de Abril. Mais informações em:

    www.leagueofgentlemen.co.uk
    www.lofg.com
    www.uip.co.uk/leagueofgentlemen

    Welcome to Royston Vasey
    You'll never leave!

    Campanha Conturbada na Disney Republic™

    O famoso pato Tio Patinhas vai manter silêncio até dia 20, data das eleições em Duckburgh, mas ontem mostrou-se incomodado com a notícia do jornal Toon Chronicle que tinha por título "Tio Patinhas aposta em maioria absoluta de Bambi".

    "Já nos basta o anãozinho Dunga!". Foi assim que o líder candidato da ala de direita e actual primeiro-ministro, Pato Donald, comentou a notícia de ontem do Toon Chronicle de que o Tio Patinhas acredita na maioria absoluta da ala de esquerda. Em declarações aos jornalistas, na residência oficial da Caixa-Forte, Donald lembrou o antigo fundador do Partido dos Patos do Centro, que apelou ao voto nos Patos Socialistas nesta campanha eleitoral, para responder a Patinhas: "Quando li a notícia pensei que o nome estava trocado!". "O mundo hoje em dia está confuso e agitado", afirmou o Pato Donald, confessando: "Não vou dizer que não acreditei."

    Questionado ontem sobre se Patinhas continua a ser o seu candidato presidencial, Donald evitou responder.

    Já o actual (e ainda) presidente do Governo Regional de Duckwood Island, João Bafo-de-Onça, só se conforma com um esclarecimento de viva voz feito por Patinhas. Bafo-de-Onça defendeu ontem que uma aposta feita por Tio Patinhas numa maioria absoluta dos Patos Socialistas seria motivo para que o ex-primeiro-ministro fosse expulso da cidade. "Penso que é também causa de expulsão do próprio partido", afirmou Bafo-de-Onça à CNN.

    "Agora faço votos que não se esqueçam de o recandidatar à Presidência da Disney Republic™", ironizou João Bafo-de-Onça, que falava em Anaheim, à margem do tradicional cortejo de Domingo no Walt Disney World.

    segunda-feira, fevereiro 07, 2005



    Tinha eu desassete anos, imaginava-me o rapaz da capa do LP (o Joe Dallesandro, filmado pela dupla Andy Warhol / Paul Morrissey no filme Flesh), e cantarolava esta canção dos Smiths até à exaustão... a esta distância, a adolescência parece uma doença tão inofensiva como uma pequena gripe.


    STILL ILL

    I decree today that life is simply taking and not giving
    England is mine and it owes me a living
    ask me why and I'll spit in your eye
    ask me why and I'll spit in your eye

    But we cannot cling
    to the old dreams anymore
    no we cannot cling
    to those dreams

    Does the body rule the mind
    or does the mind rule the body?
    I dunno...

    Under the iron bridge we kissed
    and although I ended up with sore lips
    it just wasn't like
    the old days anymore
    no it wasn't like those days
    am I still ill?
    am I still ill?

    Does the body rule the mind
    or does the mind rule the body?
    I dunno...

    Ask me why and I'll die
    oh ask me why and I'll die
    and if you must go to work tomorrow
    well if I were you I wouldn't bother
    for there are brighter sides to life
    and I should know because I've seen them
    but not very often

    Under the iron bridge we kissed
    and although I ended up with sore lips
    it just wasn't like
    the old days anymore
    no it wasn't like those days
    am I still ill?
    am I still ill?

    Antiguidades (2)

    Alguns conselhos retirados de revistas femininas dos anos 50 e 60:

    Não se deve irritar o homem com ciúmes e dúvidas.
    (Jornal das Moças, 1957)

    Se desconfiar da infidelidade do marido, a esposa deve redobrar o seu carinho e provas de afecto.
    (Revista Claudia, 1962)

    A desarrumação numa casa-de-banho desperta no marido a vontade de ir tomar banho fora de casa.
    (Jornal das Moças, 1965)

    A mulher deve fazer o marido descansar nas horas vagas. Nada de incomodá-lo com serviços domésticos.
    (Jornal das Moças, 1959)

    Se o seu marido fuma, não arranje zanga pelo simples facto de cair cinzas nos tapetes. Tenha cinzeiros espalhados por toda casa.
    (Jornal das Moças, 1957)

    A mulher deve estar ciente que dificilmente um homem pode perdoar a uma mulher que não tenha resistido a experiências pré-núpciais, mostrando que era perfeita e única, exactamente como ele a idealizara.
    (Revista Claudia, 1962)

    O noivado longo é um perigo.
    (Revista Querida, 1953)

    É fundamental manter sempre a aparência impecável diante do marido.
    (Jornal das Moças, 1957)

    O lugar da mulher é no lar. O trabalho fora de casa masculiniza.
    (Revista Querida, 1955)

    Seus porcos!!!




    Antiguidades



    Ainda nem passaram 15 anos desde o fim do império dos Sovietes... ainda se lembram deles?

    sexta-feira, fevereiro 04, 2005



    A primeira coisa em que ele pensa esta manhã é nos olhos dela, aqueles olhos grandes, azuis, poderosos, olhos tão imensos que o trespassam antes mesmo de abrir os seus. De pálpebras cerradas - mas já pressentindo a luminosidade que enche o quarto (não é que deixou outra vez o raio das portadas das janelas abertas?) - começa por adivinhar para onde olha ela. Para a direita da cama, bem para lá da porta que dá para o quarto de vestir. Mas não, o quarto de vestir não lhe interessa. Abre os olhos e ela aqui está suspensa na parede mesmo em frente: é loira (claro!) e os olhos agressivos, azuis, furiosos na expressão lançada a alguma coisa ou alguém. Ele não sabe, nunca saberá. A tela é rectangular e de horizontalidade longa, recortada à largura dos olhos dela, emoldurada por algumas madeixas loiras. Do nariz, o resoluto traço superior. A boca, um mistério. Pop Art, à maneira dos comics que recheiam as bancas de cidade e os quartos imundos dos putos. Jamais saberá o nome dela, a menos que a baptize. Mas eu quero saber o nome dele: o nome dele será Roy, Roy eu te baptizo. Porque te vejo tão bem, é o nome que quero que tenhas. Como se estivesses aqui desenhando.
    E depois da mulher mistério, é o maldito cronómetro que o inquieta. Dez e vinte e oito no despertador electrónico. Sempre esta horrorosa sensação de ter esquecido algo fundamental para o bom funcionamento do mundo. Mas desta vez nada. Um alívio, um sorriso, espreguiçar ruidosamente e abrir de novo os olhos por causa do optimismo típico dos patetas felizes. Está sozinho na cama (para variar, pensa ele!), uma cama grande de casal, e há outra grande almofada vazia do seu lado direito. Duas mesas de cabeceira e toda uma mobília de quarto, odiosa e inútil. Uma futilidade burguesa, diria há um par de anos atrás. Nem mesmo num dia de folga, em que o prazer de renunciar a todas as obrigações deveria ser um facto higiénico, a tirania inconsciente do compromisso deixa de actuar.
    Mas o olhar dela é matreiro. Fixa-o, e nem está a olhar para ele. Que se passa do outro lado da perspectiva? Uma rival igualmente agressiva? Um amante infiel, como um objecto que ora se cobiça, ora se desdenha? As mais complexas hipóteses são sempre as mais apetecidas: neste o seu quarto, que lhe custou uma fortuna mobilar, todo este imaginário que o circunda jamais poderia ser simples. Será então um homem forte, bonito, e jamais um lorpa imbecil ou um troglodita barrigudo; também não é um modelito fotográfico insípido e imberbe. Esse homem está, por necessidade, ligado à fúria deste olhar e deste desprezo. Ele quer ter aqueles olhos, beber daquele carácter inebriante, poder também ostentar aquele olhar. Que já não é andrógino. Agora tornou-se cem por cento masculino de mulher fatal. E quando pendurou aquele quadro sabia que assim poderia espreitar-se todas as manhãs ao espelho, de preferência sem confusões de maior, e poder ser um homem igual àquela mulher.

    Twilight zone

    Custa-me a acreditar que esta aberração exista. Pior: políticos em Portugal defendendo a "peculiaridade" e a "excepção" deste gigantesco campo de concentração!

    Curiosidades portuguesas

    O Dr. Diogo Freitas do Amaral (fundador do CDS) a prefaciar um livro do Dr. Garcia Pereira (secretário-geral do PCTP/MRPP). Também participou como orador convidado no respectivo lançamento.

    Portugal: ontem, hoje e amanhã



    EXÍLIO


    Quando a pátria que temos não a temos
    Perdida por silêncio e por renúncia
    Até a voz do mar se torna exílio
    E a luz que nos rodeia é como grades


    Sophia de Mello Breyner Andresen

    quinta-feira, fevereiro 03, 2005

    Fotos do outro mundo - O Rei dos Deuses


    [ Credit: Hubble Heritage Team STScI/AURA/NASA) ]

    Há milhares de anos que o homem consegue observar este planeta a olha nu. Para os gregos e os romanos era o Rei dos Deuses, mas apenas no século XVII, após a invenção do telescópio, os astrónomos detectaram uma estranha característica neste corpo celeste: uma singular manchinha vermelha na sua superfície. Na verdade esta mancha ainda hoje é visível, trezentos anos passados, e de pequena não tem nada: trata-se de uma gigantesca tempestade que dura há milénios e tão grande que nela cabem duas vezes o nosso planeta Terra, e cujos ventos ciclónicos atingem velocidades de 430km por hora, fazendo-a mudar frequentemente de forma, tamanho e cor.

    quarta-feira, fevereiro 02, 2005

    Crónicas Inúteis

    Saio apressadamente do escritório onde trabalho e desço as escadas com a rapidez do costume, com medo que o telemóvel toque e me obrigue novamente a subir, devido a uma idiotice qualquer. Quando chego à rua sinto que sou, uma vez mais, a pessoa mais feliz do mundo. Uma sensação que persiste em repetir-se todos os dias, usualmente entre as seis e as sete, hora em que saio aliviado do local onde perco as melhores horas da minha vida, e onde sou diariamente submetido ao Grande Flagelo que se impõe à Humanidade desde o início dos Tempos: o Trabalho. Raios te partam, Eva.

    Tenho, contudo, a certeza de que esta eufórica alegria pós-laboral foi também maximizada pelo avantajado Vodka Tónico que o meu estimado patrão me serviu exactamente às cinco e cinquenta. São íncriveis os esquemas que se inventam para obrigar os reles empregados a trabalhar uns minutinhos extra.

    Enquanto caminho pela Rua Prof. Sousa da Câmara em direcção a casa, acendo um cigarro - o mal que me ajuda a relaxar e a iniciar o processo de contemplação urbana mórbido a que me sujeito sempre durante este percurso. Observo e sinto tudo: a cor do céu e as silhuetas dos edifícios que nele se recortam, o frio que me gela as mãos, o palrear incessante do povo, os dejectos que irritantemente se dispõem de forma aleatória pelo chão, o rasto luminoso das luzes dos automóveis, os relógios, a publicidade, a pressa, os rostos apressados das pessoas que se acotovelam nos passeios.

    O sinal fica verde para os peões e atravesso a rua, juntamente com a massa humana, em direcção às Amoreiras, os cubos retorcidos infantis que coroam este lado da cidade. Penso:

    "Pá... esta cena ficava mesmo bem num blog."

    É neste preciso momento que reparo que estou - sem qualquer intenção - em sincronia pedonal com um rapaz, algures entre os vinte e os trinta e com muito, muito bom aspecto. Pelo menos, visto pela parte de trás. Ombros largos, pescoço grosso, cabeça rapada, um rabo evidente a condizer com o corpo forte, as mãos grossas e os dedos cheios de tinta seca, branca. Lembro-me que desde sempre dei preferência à construção civil, entre os demais.

    Atravesso a rua, sempre atrás deste gajo - a que doravante chamaremos de Bruno. Não tenho qualquer intenção de ultrapassá-lo para verificar como é a sua aparência vista de frente, até porque isso implicará virar-me para trás e denunciará provavelmente a minha curiosidade. Convém neste momento relembrar de que estou apenas em pleno processo contemplativo e, acima de tudo, sigo um rígido código de conduta que me impossibilita de expôr a terceiros, neste caso, ao Bruno. Não que eu tenha medo de que ele possa não gostar que eu olhe para ele, eu é que insisto em fingir-me desinteressado:

    "In my beauty I am safe."

    Passados dois minutos a andar pela Silva Carvalho estou, como seria de esperar, prestes a mandar a princesice para o tanas. Acelero o passo? Valerá a pena? Não, maldito Vodka, eu vou tentar não pensar mais nisto, olha ali aquela mulher a arrastar a cria obesa e esperneante. Hmmm, que pescoção.

    Estou quase no cruzamento com a D. João V e faz-se luz: são sempre três minutos garantidos de espera pelo sinal verde, enquanto os carros passam. É claramente tempo suficiente para ficar lado a lado com o Bruno, e enquanto olho para a esquerda-direita, verificar discretamente como se parece visto de frente.

    Chegamos quase simultaneamente ao momento da verdade. O cabrão até se pôs mesmo a jeito à minha esquerda. É agora! Olho primeiro para a direita, impaciente, mas sempre sempre do alto do meu pedestal, e depois para a esquerda:

    ...É feio.

    E sigo o resto do caminho que me falta. Em direção a casa. Embaraçado comigo próprio.

    Fotos do outro mundo - O medo


    [ Credits: ESA/DLR/FU Berlin (G. Neukum) ]

    Foto de Phobos - "medo" em grego - feita pela câmara da nave Mars Express. Asteróide ou satélite, este pedregulho de 22Km de diâmetro está condenado a despenhar-se dentro de cerca de 50 milhões de anos na superfície de Marte, ou a desintegrar-se em órbita, formando um anel de asteróides em torno do planeta. Se o medo fosse só uma pedra, seria esta com certeza.

    Acerca da vitimização

    Há uma categoria de indivíduos na nossa vida pública que em situações de conflito ou de competitividade, utilizam estratégias de chantagem emocional ou de vitimização para atingirem os seus fins. Este tipo de comportamentos desdobra-se em ínfimos exemplos, os quais, no entanto, seguem por norma um padrão definido. Dissimulados como são, e a maior parte das vezes cobardes, refigiam-se quando atacam em golpes obscuros, boatos, insinuações e calúnias, quase nunca proferidas ou divulgados pelos mesmos mas sim pelos lambe-botas de igual índole que parasitam a sombra destas pobres figuras públicas. Quando estas figurinhas atacam directamente, fazem-no por meio de declarações dissimuladas, sempre apoiadas nos pressupostos boatos, mas nunca numa referência explícita a estes. O passo seguinte consiste em negar: aí a chantagem emocional entra em acção, numa autovitimização pungente. São eles os inocentes, são eles os eternos atacados (de preferência por todos os lados, oposição, imprensa, até companheiros de partido), são eles as verdadeiras vítimas daquilo que injustamente os acusam... esta estratégia até poderia colher frutos entre as mentes mais simples, mas tem sido usada intensivamente por aquela espécie de portuguesinho que no dia-a-dia insiste em passar-nos a perna a todo o custo, nas filas de espera, no emprego, no comércio ou nos serviços. Quando usada pelos líderes partidários torna-se tão evidente e tão ordinária que serve apenas para lhes realçar o ridículo.

    terça-feira, fevereiro 01, 2005

    Fotos do outro mundo - Deus Sol Invictus


    [ Credits: ESA/NASA ]

    Assusta poder olhá-lo assim de frente!

    Diâmetro: 1,390,000 km.
    Massa: 1.989e30 kg (99.8% do total de todo o Sistema Solar)
    Temperatura: 5800 K (à superfície)
    Pressão (no núcleo): equivalente a 250 biliões de atmosferas terrestres
    Energia libertada: 3.86e33 ergs/segundo ou 386 biliões de biliões de megawatts

    Ficámos todos muito mais descansados!

    A Comissão de Inquérito das Nações Unidas (quantos serão, quanto ganham??) encarregada de investigar a situação no Darfur, no Sudão, em que milícias islâmicas pro-governamentais já massacraram cerca de 70 mil pessoas, chegou finalmente à conclusão de que afinal não existe nem nunca existiu nenhum genocídio na região. Ficamos todos muito mais descansados com tão objectivo e esclarecedor parecer técnico! É claro que a dita comissão nos autoriza a utilizar as expressões crimes contra a humanidade e crimes de guerra. Ainda bem que existem comissões que nos corrigem eventuais injustiças verbais contra pobres governos islâmicos oprimidos pelo imperialismo globalizador e sionista do Ocidente.

    Eles andam entre nós

    Dinossauros com penas. Novos estudos dizem que afinal eles não se extinguiram e ainda estão por aí, dominando os céus, povoando a terra, em estado selvagem ou domesticados.

    Regicídio



    Há precisamente noventa e sete anos, no dia 1 de Fevereiro de 1908, dois fanáticos carbonários lançaram-se sobre a carruagem onde seguia o rei D. Carlos, a rainha D. Amélia e os seus dois filhos, disparando sobre a família real. D. Carlos tomba de imediato, vítima dos dois tiros cobardes desferidos pelas costas por Alfredo Costa. O seu filho, o principe herdeiro D. Luis Filipe, ainda tenta sacar da arma num esforço inglório de defender o pai, mãe e irmão, mas é morto a tiros de carabina por um tal de Manuel Buiça. Os dois assassinos são abatidos no próprio local pela guarda do rei, perdendo-se assim a possibilidade de descobrir quem mais estive envolvido na conspiração e na execução do atentado. O regime que dois anos depois substituiu a monarquia decrépita em nada melhorou o estado de subdesenvolvimento em que o país estava mergulhado: aliás, a primeira república será um dos períodos mais caóticos - se não mesmo o mais caótico - da história portuguesa.
    Quem hoje dobrar a esquina do Terreiro do Paço com a Rua do Arsenal em direção à Praça do Município, não encontrará no local onde o rei e o princípe herdeiro tombaram qualquer placa, qualquer monumento à suas memórias. Será algum trauma de regime, vergonha por tão triste passado?

    segunda-feira, janeiro 31, 2005

    Top 20 - As Mulheres Mais Irritantes do Planeta


    20 :
    Stephanie do Monaco
    19 : Emma Bonino
    18 : Catarina Furtado
    17 : Celine Dion
    16 : Margarida Merces de Mello
    15 : Eunice Muñoz
    14 : Adrianne Galisteu
    13 : Paula Neves
    12 : Catherine Deneuve
    11 : Ilda Figueiredo
    10 : Cheri Blair
    09 : Yvette Sangallo
    08 : Condoleeza Rice
    07 : J-Lo
    06 : Halle Berry
    05 : Ana Gomes
    04 : Britney Spears
    03 : Elton John
    02 : Victoria Beckham

    01 : Manuela Moura Guedes

    Às armas!

    Nunca fui de me abster em questões importantes, acho que determinadas circunstâncias do dia-a-dia e da vida em sociedade exigem-nos decisões concretas e um tomar partido por uma decisão, uma opinião ou um partido. Nunca fui seguidor das profissões de fé do nosso único Nobel da Literatura, e por isso a sua cruzada a favor do voto em branco não colheu em mim um receptor favorável... muito menos suspeitando que as origens da abstenção se acham num certo azedume anti-sistema de alguém acorrentado às suas convicções marxistas-leninistas. O que me levaria a votar em branco nestas eleições seria a inutilidade da escolha, a ausência total de opção em termos de programa político, de verdadeiras reformas, pelas quais o país desespera numa agonia lenta e irreversível. Mas este fim de semana - confrontado com declarações infames e tomadas de posição indignas de um certo político que por azar nos calhou como Primeiro Ministro - vejo-me obrigado a ter que tomar uma posição clara e afirmativa. Há que acabar com isto, com esta malta trauliteira que que nos governa, com estas centenas de santanetes de raciocínio rasteiro, de cultura de teatro de revista e de educação de paróquia das berças. Há que correr com esta gente do governo do país, há que empurrá-los para o abismo eterno da ignorância e do esquecimento (aquela existência pindérica algures entre a Quinta do Lago e a Kapital) e jamais permitir que estes trogloditas voltem a conspurcar a nossa vida em sociedade, nem os mais básicos valores em que assenta a civilização, que tanto custou a outros antes de nós erguer. Espero que de igual modo dentro do PSD haja quem, com coragem, possa varrer esta tralha toda porta fora. E acredito que assim seja. Por estas e por outras, vejo-me obrigado a dar o meu voto ao Eng.º José Sócrates, o único que neste momento tem uma candidatura capaz de minorar todo este pesadelo.

    A volta ao mundo



    ERA UMA VEZ dois homens que decidiram viajar à volta do mundo, para poderem contar aos outros como este era.

    Isto sucedeu no tempo em que os homens ainda eram muitos sobre o mundo, e havia pessoas em todas as terras. Agora nós somos cada vez menos. O mal e as doenças caíram sobre nós. Vê como eu - que te conto esta história - arrasto a minha vida, incapaz de me suster sobre as minhas pernas...

    Os dois homens, que estavam a assentar na vida, tinham casado cada qual com uma jovem mulher, mas ainda não tinham filhos. Fabricaram para si taças feitas em corno de búfalo-almíscarado, cada um fazendo a respectiva taça com o corno de um dos lados da cabeça do mesmo animal. E depois partiram para o lado oposto um do outro, afastando-se até ao dia em que se voltassem a reencontrar. Viajavam em trenós, e escolhiam a terra onde permanecer e viver em cada Verão.

    Demoraram muito tempo a dar a volta ao mundo. Tiveram filhos e envelheceram, e os seus filhos também envelheceram até os seus pais serem tão velhinhos que já não podiam andar, mas mesmo assim os seus filhos carregavam-nos.

    Por fim certo dia reencontraram-se, e das suas taças de beber restavam apenas as pegas, tantas tinham sido as vezes que haviam bebido água por elas, raspando o corno pelo cascalho do chão de cada vez que as enchiam.

    "O mundo é realmente muito grande!" - exclamaram quando se encontraram.

    Eram jovens quando partiram, e agoram eram velhos, carregados pelos seus filhos.

    Na verdade, o mundo é mesmo muito grande.


    [Traduzido de Eskimo Folk-Tales, collected by Knud Rasmussen, London, 1921]

    sábado, janeiro 29, 2005

    Vender a alma na cidade dos anjos


    The difference between art and pornography is the lighting
    Tony Ward


    Pretendia eu rever esta noite o filme Hustler White, mas perdi o paradeiro à minha cópia em DVD, uma daqueles truculentos contratempos com que sou brindado com frequência. Conformando-me com a evidência e sem alternativa imediata que cubra a falta, resigno-me a escrevinhar alguma linhas sobre o desaparecido!

    Trata-se de uma obra manifestamente underground, do realizador/fotógrafo/escritor Bruce LaBruce, de nacionalidade canadiana, do qual eu desconhecia a totalidade da sua obra e as inspirações, falha esta em certa medida compensada pela existência do seu web site, o qual é um portal para o universo criativo do realizador: www.brucelabruce.com. Visite por sua conta e risco!

    O filme trata das aventuras de um prostituto na cidade dos anjos, numa esquina algures entre os sonhos de Hollywood e o inferno. Não se pode reduzir o filme atribuindo-lhe uma tipologia gay, ou porno, não - é bem mais do que isso, sendo também isso mesmo. Interessante o ambiente retratado, que me faz recordar a atmosfera sufocante dos filmes de David Lynch. Outras referências me vêem à cabeça: Genet, Fassbinder, Wharhol, etc. Ocorrem-me as cores berrantes, próprias do formato vídeo em que terá sido rodado, o som sempre ambiente, iluminação, montagem ou direcção que têm mais a ver com o cinema porno do que com formas mais convencionais e escolásticas da Sétima Arte. Paradigmática a cena num estúdio de rodagem de um filme pornográfico: o à vontade e o desprendimento na encenação ou representação do acto sexual. E também o kitsh - tão omnipresente quanto as metálicas palmeiras onde pragas de ratos nidificam - a apelar a sentimentos despretensiosos, veja-se o happy ending hollywoodesco onde o piroso se beija a si mesmo no espelho.

    Curioso o efeito que sobre nós exerce a cidade retratada, num misto de atracção submissa ou de repúdio, local de quimeras, como se diz no próprio filme, onde a própria arquitectura é ela mesma como que um cenário de cartão de uma qualquer produção barata. Cidade onde os medos se multiplicam, onde a marginalidade é infinitamente mais perversa que em qualquer outro lado, onde os desejos sexuais mais bizarros têm guarida, onde a pobreza é tão revoltante quanto a riqueza se revela abjecta.